Salvo engano, o antropólogo Pierre Claustres descrevia o
processo de divisão em grupos dos povos indígenas ameríndios como uma ação política.
Se um grupo estava insatisfeito com a liderança da tribo, por exemplo, eles
simplesmente “votavam com os pés”: pegavam suas coisas e iam embora formar uma
nova. Foi exatamente o que fizeram os alunos da Turma D no dia de apresentação
do seminário.
Quando a aula começa, apenas 8 dos 15 alunos estão
presentes. O malandrão, lembra dele?, também não deu as caras. Quando o
professor entra na sala, as perguntas se sucedem: “posso ler?”, “o que a gente
faz se não entendeu nada?”, “não vou falar nada, posso ficar só segurando o
cartaz?”. Ninguém parece confortável com a situação.
O professor chama o Grupo 1, que tem apenas uma aluna
presente. Ela diz que não vai apresentar nem entregar o trabalho escrito, pois nada
foi feito. Mais do que a admissão do fracasso, me chama a atenção o seu conformismo.
Não há vergonha, nem mesmo nenhuma tentativa de negociação (tipo, professor,
deixa eu entregar amanhã). Não fazer é uma opção, tão legítima como simplesmente
não aparecer no dia da apresentação.
O Grupo 2 não é muito diferente: dos 3 alunos que estão na
sala, 2 seguem o exemplo da aluna conformada. Apenas uma se deu ao trabalho de
tentar. Ela entrega "extensos" dois parágrafos escritos como sua parte do trabalho,
enquanto o professor tenta convencê-la a apresentar alguma coisa. Ela cede e,
com o livro em mãos, vai para a frente fazer sua tentativa.
A aluna tropeça logo no início da explicação e o professor
intervém, intimidador, deixando transparecer toda sua frustração. “Ei li tanto
coisa, mas não me lembro”, tenta se justificar. O tema é cosmogonia e teogonia.
À pergunta “o que significa teo?”, ela arrisca: “É um Deus grego”. A
apresentação toma outra forma: enquanto a solitária expositora lê trechos do
livro, o professor explica-os para os membros do Grupo 3, os únicos que prestam
atenção no que está sendo dito. Os outros olham celulares, baixam a cabeça,
lixam as unhas...
Enfim, o único grupo que realmente preparou algo vai à
frente. Nada de PowerPoint, vídeos, dramatizações. O único recurso que
prepararam é um pequeno cartaz com o tema da apresentação: “O legado da
filosofia para o Ocidente Europeu”. Sem mostrarem nenhuma segurança no que
estão falando, com seus pedacinhos de papéis na mão como um roteiro ou cola, viram
presas fáceis da impaciência do professor, que interrompe a toda hora com
perguntas e explicações. A impressão é de que estamos diante de uma prova oral,
tanto é que um aluno pede: “por favor, deixa a gente terminar”.
O desastre na Turma D explicita o óbvio: esses alunos são
incapazes de ler trechos de um livro-texto e expô-los com um mínimo de segurança.
Que boa parte dos alunos não desenvolve a capacidade de ler e interpretar textos
razoavelmente complexos, todas as avaliações já cansaram de mostrar. Mas
haveria algo a mais para explicar esse desempenho? Uma falta de sentido dos
temas tratados? Uma dificuldade de entender algo tão distante no tempo (e de
suas realidades) como o nascimento da filosofia? Uma forma tão careta de abordar
o assunto, com palavras complicadas (cosmogonia, teogonia) e explicações político-econômicas
(a polis grega, as trocas comerciais, etc.) que impedem qualquer possibilidade
de encantamento e identificação com o que está sendo tratado? A ver...

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