A insuportável sirene marca de forma implacável os limites temporais da rotina escolar. A lógica é fabril e cada minuto desperdiçado é quase sempre irrecuperável, assim como os dias letivos estabelecidos no calendário. Se o tempo é escasso e as necessidades da diciplina infinitas, gerir de modo eficiente o que ocorre nos momentos dedicados à Filosofia é fundamental. Bem, não foi isso o que constatei em meu primeiro dia efetivo de observação em sala de aula.
Como já havia descrito, as aulas são duplas. E durante 1h30, nenhum conteúdo específico de filosofia foi ensinado. Todo o tempo foi gasto com tarefas burocráticas (chamadas, recolhimento de trabalhos, calendário de avaliações, etc.) e com a preparação para um seminário. Na expressão dos alunos, um tédio que constatava que aquele fora um tempo desperdiçado.
Tudo isso ganhou ares ainda mais dramáticos quando fiquei sabendo que aquele havia sido um bimestre bastante prejudicado. O primeiro dia de aula não rolou devido à greve dos professores no início do semestre. O segundo foi mais ou menos, vítima ainda da indecisão sobre a retomada dos trabalhos por parte dos docentes. Em outra ocasião, a falta de luz (ou de água) fez com que os alunos fossem mandados embora mais cedo. No balanço das horas se constrói parte da tragédia do ensino público brasileiro.
Na equação entra a cultura de greve indiscriminada do serviço público, somado ao alto índice de falta dos professores (segundo dados do Pisa, 30% dos alunos estão em escolas onde a falta de educadores afeta a aprendizagem - contra uma média de 17% dos países participantes do exame) e mais o mau aproveitamento do tempo gasto em sala de aula (pesquisa do Banco Mundial mostra que apenas 64% do tempo da classe é usado para transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões internacionais). Para piorar, isso se dá em um país em que o ensino em tempo integral alcança apenas 12% das matrículados na educação básica (dados do Observatório do PNE).
Mas, voltando à aula: por um lado, o professor fez o que me parece certo: explicar detaljadamente o que é e como se prepara um seminário, os critérios de avaliação, etc.. Por outro, passou meio batido na questão primordial: para que serve um seminário? A resposta foi meio batida: vocês tem que aprender a apresentar algo em público porque um dia na vida irão passar por uma situação semelhante. Não sei se afirmações do tipo tem algum apelo junto aos estudantes. Afinal, para que serve mesmo um seminário?
Bem, na minha experiência como professor (e também como aluno, assistindo ao seminário dos colegas), serve para provar a incapacidade dos discentes (incluídos aí boa parte dos que estão no 3º grau) em realizar uma pesquisa básica, interpretar um texto e expor seu conteúdo de forma organizada para os outros. Graças a Deus, essa é uma prática praticamente abolida do curso de Filosofia da UnB.
Mas, no mundo ideal, o seminário é uma oportunidade de exercitar a capacidade de transformar um conhecimento próprio e privado - adquirido por meio de pesquisas e leituras - em algo público por meio de variadas técnicas de exposição. Não basta saber algo, é preciso poder comunicá-lo para podermos nos inserir nos espaços públicos e sermos capazes de influenciar os outros. Ainda assim, isso faz sentido para os alunos? Como mobilizá-los para que se empenhem em uma atividade como essa?
Mas, no mundo ideal, o seminário é uma oportunidade de exercitar a capacidade de transformar um conhecimento próprio e privado - adquirido por meio de pesquisas e leituras - em algo público por meio de variadas técnicas de exposição. Não basta saber algo, é preciso poder comunicá-lo para podermos nos inserir nos espaços públicos e sermos capazes de influenciar os outros. Ainda assim, isso faz sentido para os alunos? Como mobilizá-los para que se empenhem em uma atividade como essa?

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