sábado, 18 de abril de 2015

Filosofia africana: uma ausência eloquente

Filosofia é um troço ocidental e, mais particularmente, europeu, certo? A se julgar pelo que aprendemos predominantemente nos cursos de filosofia, sim. Bem, tem aquelas ditas filosofias orientais, tem o pensamento indígena (elevado a um status mais digno por Lévi-Strauss e, mais recentemente, por Viveiros de Castro), mas africano? Filosofia de verdade? Jura?

O tema foi debatido na UnB no último dia 19/04, em palestra do professor Wanderson Flor entitulada "Ensino de filosofia e filosofia africana". Um dos poucos estudiosos do tema no país, Wanderson tocou em um problema para lá de espinhoso do ensino de filosofia no Ensino Médio: como cumprir o estabelecido pela Lei 10639/03, que altera a lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional (LDB) e estabelece o ensino sobre cultura e história afro-brasileiras? 

Segundo Wanderson, reconhecer a existência de uma filosofia africana já é, por si só, uma questão complicada. Afinal, grande parte do pensamento ocidental moderno negou aos povos daquele continente não só uma história própria como a capacidade de pensar e de constituir uma filosofia. Ultrapassado esse obstáculo, é preciso lidar com as expectativas de que, caso exista, o pensamento africano é da ordem do primitivo, do exótico, do pré-científico, e que só podemos considerá-lo como filosofia por uma "concessão".  

Wanderson explica que, superado todos esses desafios, o que vamos encontrar não são apenas autores que dialogam diretamente com a tradição ocidental, mas também um pensamento que se origina das cosmovisões particulares dos povos do continente. Todas essas filosofias são objeto de estudos na Europa e nos EUA (além, claro, das instituições locais) e temas de milhares de publicações. Ultrapassa o número de 400 os manuais de introdução ao pensamento africano escritos em diversas línguas (apenas um, no entanto, em português, e nunca editado no Brasil). Com um pouco de esforço, portanto, é possível se iniciar no tema.

Mas, como inserir o pensamento africano na realidade da sala de aula? Wanderson indicou 5 itens, dos 30 indicados nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (os de número 1, 2, 6, 13 e 18), dentro dos quais se poderiam abordar alguns conteúdos daquela filosofia. E deu um exemplo paradigmático: a falácia do milagre grego das origens da filosofia, que ignora as contribuições tanto dos orientais como dos africanos (principalmente do Egito) na sua constituição. 

"Não temos o direito de decidir se os alunos terão ou não acesso ao pensamento africano. Para tornar esse ensino realidade, precisamos de vontade política e compromisso educacional", ressaltou Wanderson. Um desafio e tanto, do qual não podemos simplesmente virar as costas e fingir que o problema não é com a gente.     

Obs: para quem quiser ler mais sobe o tema, foi publicado o Dossiê Pensamento africano, afro-brasileiro e educação na Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Clique aqui para acessar o material. 

   

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