sábado, 30 de maio de 2015

Eyes with a face 2: a dor de uma expulsão

Assim como o aluno do post anterior, também fui expulso de um colégio no então 1º ano do 2º grau. Dessa atitute extrema, não aprendi nada, a não ser odiar ainda mais o Leonardo da Vinci, que resolveu me mandar embora, a meu ver, injustamente. Por conta disso, perdi contato com a única turma de amigos que consegui fazer nesses últimos anos escolares da minha vida e até hoje carrego essa mágoa.

Cursei a maior parte do então 1º grau no Cecap, colégio pequeno do Lago Norte que ficava a uns 500 metros da minha casa. Lá, era um bom aluno, sem que, para isso, precisasse me esforçar. Cheguei até a tirar um 2º lugar na Olimpíada de Matemática interna (meus pais, dia desses, relembraram o fato, mas na memória seletiva deles, eu é que tinha ganho...). Mas, junto com a minha irmã mais velha e outros colegas, decidimos que deveríamos cursar o 2º grau em uma escola maior, mais exigente, e o escolhido foi o Leonardo da Vinci, no qual ingressei ainda na 8ªsérie. 

Quando era mais novo, costuma dizer que tinha nascido mesmo aos 15 anos. Foi quando mergulhei de verdade na minha paixão da época (o rock'n'roll), comecei a beber, sair, namorar, conhecer a cidade, a noite. Tudo isso graças a um grupo de amigos (Úrsula, Rodrigo "Zezé", Thiago "Batatinha", Gabriela, Gustavo, e outros) que, pela primeira vez na vida, (e, provavelmente, a última) me fez sentir parte de uma verdadeira turma. 

Claro que, com todas essas descobertas e vivências, os estudos passaram para segundo plano. Mesmo assim, eu me virava bem na hora de garantir as notas mínimas para passar. Se o comportamento em sala não era dos melhores (conversinhas, piadinhas, etc.), também não era caso de "polícia". Lembro, por exemplo, de ser expulso de sala junto com os amigos da minha turminha porque estávamos passando bilhetes pela janela para a outra sala. Coisa de menino, perdoável. 

A escola, no entanto, não via assim e alguns professores começaram a me marcar (talvez com raiva pelo fato de que, mesmo sem prestar atenção nas aulas, não ficava com notas vermelhas, ao contrário dos meus outros amigos). Era um colégio super-controlador, e sua entrada cheia de grades já dava o tom do seu estilo. Tanto que, ao decidirmos fazer uma camiseta da turma, propus o desenho de uma prisão com os dizeres: "pague para entrar, reze para sair". A direção vetou.    

A coisa começou a degringolar para o meu lado. Não me deixarem, por exemplo, participar de uma viagem de excursão (já não lembro para onde) devido ao meus problemas de comportamento, A bomba estorou, no entanto, durante uma aula de biologia. A direção havia mandado que eu e minha turma passásemos a sentrar nos primeiros lugares. Antes da aula começar, estava discutindo com um amigo para que ele não sentasse em determinado lugar, pois, assim, ele atrapalharia uma aluna mirradinha, que tinha algum tipo de deficiência, No imbróglio, acabei pegando a carteira dele e colocando no tablado do professor. 

Sem entender o que estava acontecendo, o professor, que estava em um daqueles dias, estourou. E começou a me desencar na frente de toda turma, dizendo que não dava para dar aulas para "marginais" como eu e coisas do tipo. Não vesti a carapuça e saí da sala na hora, indo na direção denunciar a agressão. Depois de todo rolo, o professor chegou a pedir desculpas para mim e para o meu pai. Mas era só teatro: pelo que me contaram, no Conselho de Classe do meio do ano, ele pediu a minha cabeça e foi atendido pelos colegas. 

A expulsão foi tão injusta e arbirária que não recebi nenhuma reprimenda dos meus pais. Ninguém teve a dignidade de conversar comigo e justificar a decisão, explicando os motivos de tal decisão extrema. Educar pressupõe o diálogo, o erro e a chance de se aprender com eles e mudar. Nada disso foi feito ou tentado. Temos um problema? Ora, livre-se dele, pois temos coisas mais importantes com que nos preocuparmos, tipo, quantos de nossos alunos vão passar no vestibular da UnB esse ano.   

Separado à força dos meus amigos, vejo hoje no episódio um fator importante para desencadear a raiva e o desprezo que passei a nutrir pelos sistemas educacionais pelo restante do 2º grau. Mas aí já é assunto para outro post...      

Um comentário:

  1. Tá bom, tá bom, como membro da gangue tenho que me pronunciar. Nossa turma era a melhor: nos divertíamos com muito pouco, nossas conversas, nossa paixão pelas mesmas bandas, nossas diferenças. Ninguém tinha carro, claro, nem dinheiro então nos bastávamos. Hoje ao meu ver a única rebeldia que nos cercava era o pensamento adolescente. Injusto dizer que nosso doce Iquinho (o marginal Henrique) era um problema a ser solucionado na escola. O sistema educacional tradicional assassina as mentes pensantes e questionadoras e idolatra os alunos "bonzinhos", os treináveis, que simplesmente aceitam tudo que lhes é vomitado. O que seria do mundo sem os rebeldes, os fora da curva? Henrique era assim, provavelmente ainda é, inquieto, indomável e graças a ele e aos outros da gangue meu segundo grau, cheio de acidentes e idas à coordenação e advertências, foi o melhor!

    ResponderExcluir