terça-feira, 12 de maio de 2015

E como será na França?

Na minha fantasia, bom mesmo seria ensinar filosofia na França. Imagino logo alunos com boa bagagem cultural, domínio da língua e da leitura, e uma curiosidade natural pelas questões da disciplina, com jovens citando Descartes assim como quem fala do Neymar. A se levar em conta a palestra do professor Philippe Lacour na última sexta-feira (08/05) sobre o ensino de filosofia na terra do Asterix, nada mais distante da realidade.

Recente "aquisição" do departamento de Filosofia da UnB, Lacour contou um pouco da sua experiência de três anos como professor dos liceus franceses. Como bom novato no hierárquico sistema educacional daquele país, ele penou em escolas de periferia e regiões menos desenvolvidas. Turmas com número excessivo de alunos, falta de domínio da língua, salários arrochados... Nada que um professor brasileiro não poderia ter dito. (Detalhe: lá, em um governo que nem é considerado tão de esquerda assim, o Ministério da Educação foi o único poupado de cortes no orçamento. Já aqui, na pátria educadora...). O mal-estar de ser professor, parece, também está globalizado.

A filosofia, de forma geral, só aparece no último ano do liceu francês. A disciplina tem carga horária diferente de acordo com o tipo de ensino escolhido (geral, profissionalizante, técnico) e a área de interesse. Para aqueles que desejam obter um Bac L (Bacharelado Literário, algo como um diploma de conclusão do ensino médio que dá direito a entrar na universidade), são 8 horas por semana. Para aqueles que optaram por um ensino tecnológico, são apenas 2h. Ou seja, há uma relativização da importância da filosofia para os alunos, que chega a ser nenhuma no caso do ensino profissionalizante.  

Para conseguir um Bac L, não basta somar pontinhos em uma provinha tipo Enem. É preciso escrever uma dissertação (a partir de um tema proposto) e um comentário de um texto. Lacour apresentou um exemplo de dissertação, que tinha umas 3 páginas de World. Em uma olhada rápida, eu diria que pouquíssimos estudantes brasileiros teriam condições de preparar uma. O professor me deu a impressão de que boa parte do ensino de filosofia é voltado para desenvolver as habilidades de argumentação necessárias para realizar essa prova e fiquei pensando se isso não acabava limitando o trabalho em sala de aula. 

Um detalhe me chamou a atenção na prática docente francesa. O primeiro ano do professor no sistema educacional (que é nacional) é de carga horária reduzida em sala de aula, para que ele possa se dedicar a preparar o seu curso. Além do mais, ele recebe orientações de um colega-guia. Esse cuidado em preparar o profissional me parece fundamental para evitar os erros e os sustos de quem está iniciando e que bem poderia ser copiado aqui. Lacour contou que o governo propôs acabar com essa prática para reduzir custos, mas teve que recuar por causa da pressão da classe. 

Vale ressaltar também a opinião de Lacour sobre os problemas de aprendizagem dos alunos na França. Para ele, são frutos dos métodos de ensino atualmente em voga, desenvolvidos com base nas pedagogias libertárias que surgiram a partir da década de 60. Para o docente, elas não estão sendo capazes de promover as competências de base (como ler e interpretar textos, por exemplo) e citou especificamente o método global de alfabetização como um dos responsáveis por isso. Me pareceu um tema a ser aprofundado. Será que isso também é um problema no Brasil? 

Para quem tem curiosidade para saber o conteúdo do que é ensinado em filosofia nos liceus, clique aqui e veja os quadros com os conteúdos voltados para os 3 tipos de bacharelados (Literário, Ciências Econômicas e Sociais, e Ciências). Lembrando que o currículo na França é nacional.        

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