domingo, 14 de junho de 2015

As tears goes by...

Dia de entrega dos boletins em plena tarde de uma quinta-feira. Na minha cabeça, isso deveria ser feito no sábado, em um grande dia de festa, com ginganas, apresentações, comes, uma forma de aproximar a comunidade da escola. Mas não: os pais interessados tem que pedir uma licença em um dia de semana para poder conversar com os professores. Vai entender...

Aqui, o professor é autoridade absoluta e ninguém o questiona. Os pais querem saber das notas, das faltas, do comportamento de seus filhos, mas não do que é ensinado, e como, e para quê. O parâmetro é a média 5: se passou, tá ótimo, é o que importa, depreende-se das falas de ambos os lados. Caso contrário, algo está errado com o jovem, e é obrigação dele melhorar. 

O celular também é tema constante das conversas. Ele é o vilão da vez, o culpado pela desatenção dos alunos. Como professor, sempre achei o menor dos problemas: caso alguém não esteja a fim de assistir à aula, é melhor ficar quieto com o seu aparelhinho do que conversando e atrapalhando os outros. Quando eu estava no ensino médio, não largava o meu walkman: passava os fones por debaixo dos cabelos grandes e aguentava as aulas chatas ouvindo muito rock'n'roll.

Uma cena me partiu o coração: a mãe, aparentando ser uma pessoa bem humilde, quer saber sobre o desempenho do filho. O menino teve a capacidade de tirar zero em uma prova objetiva: ou seja, além de não saber nada, ainda é azarado para chutar. Ela tenta se justificar com o professor: mudaram-se recentemente para um lugar em que não conhecem ninguém, não tem internet, o garoto tem que trabalhar para ajudar em casa... 

Lágrimas caem quando ela conta que estudou apenas até a 6ª série e que não consegue ajudar o filho quando surge uma dúvida nos estudos. O menino tem aquela cara de inocente, de perdido, de quem necessita sempre de alguém para lhe explicar o que fazer. Parece resignado com o próprio fracasso. É nessas ocasiões que a gente se dá conta de quanto a vida lá fora interfere no desempenho do aluno e impô-lhe limites dificilmente transponíveis. Penso em tantos alunos que mal sabiam ler e escrever e ele me parece ser um desses casos. Talvez até conclua o 2º grau, mas sem que esse ensino lhe acrescente grande coisa na vida. Triste retrato de nossas desigualdades, do qual me advém apenas uma certeza: não é com repetição que vamos ajudá-lo.    

  


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