quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Livros, livros, livros...

Vejo como uma das missões principais de um professor de Ensino Médio despertar o gosto dos alunos pela leitura. Não é só uma estratégia para aprimorar o ensino de filosofia (afinal, é difícil imaginar o estudo um pouco mais aprofundado da disciplina que não passe pela leitura), mas também um modo de possibilitar a inserção do aluno no mundo da alta cultura e de fornecer-lhe as ferramentas que lhe poderão garantir uma autonomia intelectual e de aprendizado. 

Difícil missão essa, que tem contra si não só o apelo das novas mídias como também o arraigado desprezo pelos livros entranhado na nossa cultura. Lembro sempre de um texto do Diogo Mainardi (sim, eu já li algo  dele que prestasse) em que ele ilustrava essa deficiência de forma marcante: a do furto do seu carro, ocasião em que o ladrão levou tudo, até um par de meias sujas, deixando para trás, no entanto, os muitos livros que lá se encontravam. 

Nesse cenário desolador, acredito que uma das técnicas que podemos utilizar para despertar o gosto da leitura é a de tornar o livro um objeto familiar. É preciso que eles estejam sempre presentes na sala de aula, que falemos deles, que sejam manuseados e folheados constantemente pelos alunos. Quando vou dar uma aula sobre Freud, por exemplo, sempre levo um exemplar das obras completas e as faço circular pela sala.  

Foi partindo dessa ideia que dei uma aula introdutória sobre Nietzsche para o 3º ano. Levei para eles as principais obras do filósofo alemão e propus a seguinte atividade: em grupos, eles deveriam escolher uma e descobrir sobre o que cada uma delas versava (por meio da leitura da orelha, contra-capa, índice, etc.) para, posteriormente, explicar à turma. Também solicitei que escolhessem aleatoriamente um aforismo e tentassem interpretá-lo. 

O resultado foi bem satisfatório. Creio que não só despertou a curiosidade deles pelo autor como, por meio da apresentação deles e dos meus comentários, foi possível fazer uma boa introdução das características do pensamento e do estilo de Nietzsche. Além do mais, eles tiveram a oportunidade de passar um tempinho com esse objeto - tão estranho para alguns - nas mãos. Vai que alguém toma gosto, né? Essa é a minha aposta. 
 
P.S.: Lembrei de uma experiência que fiz quando ainda dava aula em faculdades de jornalismo. Enchi uma mala com uma seleção de livros interessantes da área ou afins (como grandes reportagens, coletânea de crônicas, etc.) para distribuir entre os alunos. Não pedi nada: resenha, trabalho, essas chatices. Quem queria, pegava para ler e me devolver no final do semestre. A adesão foi grande e, parece, a maioria acabou, de fato, lendo. Ás vezes, só o que falta é a oportunidade ou um empurrãozinho.   

sábado, 3 de outubro de 2015

Rolou a transferência...

Os leitores lembram que, no primeiro dia de aula, propus às turmas do 2º ano a leitura prévia do livro Filosofando para que pudêssemos utilizar o tempo em sala de aula para debatermos, tirarmos dúvidas e aprofundarmos o tema em questão - o empirismo britânico. Anos de docência em faculdades já me indicavam que o índice de leitura não seria muito grande, mas resolvi, mesmo assim, pagar para ver, afinal, para que serve um estágio se não for para arriscar e errar?

O primeiro retorno foi desastroso. Curiosamente, a turma que mais reclamou das aulas expositivas mostrou-se completamente descomprometida. Apenas 1 aluno leu o texto. Mesmo já vacinado, confesso que tal atitude me abalou e, como acontece nesses casos, perdi o controle. Já tinha decidido qual seria minha atitude: deixaria aos poucos que tivessem lido a decisão de escolher o que gostariam de fazer: ter uma aula expositiva ou debater. No caso, o solitário aluno optou pelo debate. De forma grosseira, avisei ao resto da turma: "vocês sentem e fiquem quietos. Quem der um pio vai para fora".  

Comecei o debate com o aluno e, na primeira conversinha paralela, mandei o aluno para fora de sala (na verdade, peço para que eles dêem uma volta, "vai beber água", e voltem mais tarde). Minha grosseria mexeu com os alunos e a maioria deles resolveu abandonar a sala, restando 4 ou 5. Mantive a decisão e continuei o debate até o fim, sabendo que tinha errado na postura. 

A surpresa veio em outra turma, que, por isso mesmo, tornou-se a minha preferida (vamos chamá-la de turma RT, de "rolou a transferência"). Pelo menos umas 10 alunas (curiosamente, todas mulheres) leram o texto. Passei um questionário para o restante da classe responder (obrigando-os, assim, a efetuarem a leitura), enquanto debatia com as alunas aplicadas. E, aí sim, rolou a filosofia: tiramos dúvidas, demos exemplos, questionamos, fizemos conexões com outros filósofos (até Agostinho!) e com a vida atual, ou seja, nos apropriamos daquele conteúdo e demos um significado para ele. Após o desastre anterior, essa aula me deu forças para não abandonar a intenção de botar a molecada para ler.